
Dando continuidade a esta série de posts que comecei a fazer a partir da disciplina Dança, Temporalidade e História, abordarei mais um texto de Roderyk Lange – A dança se transforma em arte – capítulo V do livro A Natureza da Dança.
Roderyk inicia o texto dizendo que a dança, comum no mundo animal como um meio de expressão e comunicação, assume a função de expressar ideias abstratas com a ascensão dos seres humanos. O movimento comporta significados sofisticados de forma mais rápida e compacta do que a fala e, por isso, está mais próximo da existência biológica do homem do que a linguagem com seus códigos.
Na dança, o duplo papel exercido pelo dançarino, como criador e instrumento que expressa, é único na arte.
A dança está ligada a vida espiritual do homem (considere a palavra espiritual como algo abstrato/imaterial) e talvez seja este o critério básico pelo qual podemos distinguir as danças executadas pelos animais e a arte humana de dançar.
A dança alcançou muito cedo na história humana o status de arte e talvez o de primeira arte para o homem, porém, ao longo do tempo, vem sendo substituída por outras áreas de expressão, áreas que têm eliminado gradualmente a participação direta do homem no ato de criação artística.
A despeito de se transformar em arte, a dança é ainda composta por movimentos humanos comumente utilizados. No entanto, ela se distancia desses movimentos comuns cotidianos que têm objetivos práticos e utilitários, até chegar em um nível poético de ações corporais no espaço. Aqui os elementos racionais e espirituais têm lugar. O propósito da dança é revelar um conteúdo que é originado na criatividade da mente. Esse conteúdo é compreensível como uma entidade expressiva em si mesma, e isso não poderia ser exposto ou explicado por outro meio sem ser a dança.
Roderyk cita Laban e sua teoria do movimento: considerando os elementos básicos do movimento (espaço, tempo, fluxo e peso), o fluxo é o elemento mais enfatizado na dança.
A ação do movimento na dança tem função prática, só através da sua continuidade que o fenômeno da dança é percebido. Se não se respeita essa continuidade sem enfatizar o elemento fluxo do movimento, não há a ação da dança. (…) Mesmo quando ele permanece numa pose, o dançarino é capaz de manter a atitude de continuidade da dança.
A dança está ligada com o prazer da auto-expressão. É aqui que as necessidades estéticas do homem aparecem e estão profundamente enraizadas no meio biológico.
A interpretação de Laban é que o prazer estético na dança é derivado principalmente do sentido de equilíbrio “esforço capacidade” adquirido através do envolvimento da atividade na dança. Após as frustrações e atribulações do dia a dia o homem sente a necessidade de encontrar um mundo diferente que lhe permita recuperar o seu equilíbrio (…) É apenas este estado de equilíbrio da capacidade de esforço que possibilita o homem de enfrentar a vida de novo, de efetuar novas tarefas e de fazer as ações necessárias de maneira apropriada e efetiva.
Fonte da imagem: O Bla Bla Bla de Karol